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Carta a Jardson Rodrigues

Carta a Jardson Rodrigues

Thiago Rodrigues
Por: Thiago Rodrigues
08/12/2015 às 00h18 Atualizada em 08/12/2015 às 00h18
Carta a Jardson Rodrigues
Foto: Reprodução
Meus pais me tiraram daí quando jovem para estudar no seminário de Olinda, por falta de oportunidade. Me tornei Padre, mas não vinguei, fui amante de Botânica pois adorava as árvores de minha terra, principalmente a Carnaúba, a qual dediquei um de meus ensaios. Voltei a Província e fui convidado a fundar o Liceu do Ceará e por lá escrevi diversas obras uma delas adotada em outras Escolas do Império, inclusive no famoso Pedro II na cidade dos cariocas. Em passagem por ai vi o pequeno Joaquim e decidi leva-lo para longe de onde não havia educação. Meu pai preferiu ficar ai neste pedaço de chão onde construiu nossa família e dedicou-se a ser político, sendo opositor ferrenho da velha política da roda de Lúcio. Pedi a papai que tornasse correspondente para meu Jornalzinho aqui na Capital, Fortaleza, mesmo assim nunca deixei de lutar por essa terra. Fiz o que pude por aquele pedaço de chão onde nasci, por minha família, pelos amigos que fiz e deixei, pois sei que sempre terá Santa Quitéria guardado minhas melhores lembranças, naquele casebre na Rua da Praça (Já derrubaram).
Fico triste em saber que a praça que me foi dedicado o nome, que na minha época era apenas um grande areal onde brincávamos, agora clama pelo mesmo problema que combati no século XIX, a ignorância. O velho Lúcio, ficou se retorcendo aqui, e vibrando pela morte das árvores, parecia que estava vendo o imperador passar, ora ele nunca gostou de árvores, sempre quis abrir espaço para sua criação de gado, lucrar e ser bem visto pelos membros da roda.
Mas lembre-se de como fiz e construí minha vida fora daí, e ficará estes concelhos:
Peço-lhe calma, e que sejas sensato: Não revide à ofensas, pois toda ofensa tem um medroso por trás.
Não batas a cabeça com nenhum tolo, pois ele sabe que poderá vencer sempre.
E se preciso for siga o exemplo do juiz Dr. Farias Sobrinho que esteve por ai em 1946:
"Dizia que nunca tinha visto no Ceará, uma terra com nome de santo ir pra frente... e que este lugar nunca passaria do passo do Aníbal." 
Como sei meu caro Jardson que você nasceu a pouco tempo, não conheceu Aníbal, lhe digo que ele era um Cidadão que caminhava vagarosamente nesta terra.
Ti direi mais ainda meu caro jovem, tenhas juízo onde a insensibilidade ao próximo e as coisas da história são postas de lado a cada dia pela arrogância, prepotência e pelo dinheiro. Ah! Lembre-se não precisei humilhar nem pisar em ninguém para me tornar quem fui, como é típico de alguns que ai residem.
PS: Estou negociando chuvas com São Pedro, mas cada vez que colocamos a cabeça para baixo de uma nuvem e vemos tanta sujeira e insensatez dos homens, São Pedro pedi para guardar as chaves do céu.
Qualquer coisa entre em contato comigo, sabes meu endereço.
Abraço e fraternidade.
Tomás Pompeu de Sousa Brasil

Jardson Rodrigues é quiteriense, historiador, professor e defensor da preservação histórica de Santa Quitéria.