As paredes de uma casa guardam uma história que começou a ser imaginada há exatos 100 anos.
Foi o barulho do sertão que alimentou a imaginação de uma menina chamada Rachel. Ela tinha cinco anos de idade e o Ceará passava por uma das piores secas da sua história.
Tão trágica que 1915 passou a ser conhecido apenas por O Quinze. E naquela época a menina tinha dois olhos, um coração e janelas. Com o que viu, anos depois ela escreveu uma ficção muito próxima da realidade.
Um dos personagens era um homem chamado Chico Bento. Sem chances de sobreviver ali, ele pega uma mula, a família e resolve retirar-se. Uma viagem de 200 quilômetros a pé, de Quixadá até Fortaleza.
A saga do retirante e o livro “O Quinze” são hoje um patrimônio. E foram imaginados dentro de uma casa.
Cem anos depois, que segredos ainda existem nesse caminho? Desde ontem, a reportagem pisa nas pegadas de um personagem imaginário numa busca pela salvação, o maior impulso de vida.
Nada foi combinado, tudo acontece ao acaso. Quanto de 1915 ainda existe em 2015? Para responder essas perguntas, foi produzido O Quinze: Travessia.
Rachel de Queiroz descreveu o início do caminho assim:
“O chão, que em outro tempo a sombra cobria, era uma confusão desolada de galhos secos, cuja agressividade se acentuava ainda mais pelos espinhos.”
Hoje, a paisagem só muda quando se encontra um descampado que num próximo olhar se revela uma lagoa gigante sem gota d’água.
Por causa dela, acontece o primeiro encontro da reportagem.
“Tem hora que a gente num sabe mais o que faz da vida. Por que a gente é pai de família e você sabe, né? A gente sendo pai de família que cada dia que se passa a gente tem que arrumar o pão dos filhos, né? Se não arrumar aí o negócio fica feio”, conta o agricultor Idelfonso Cavalcanti.
Último recurso: Idelfonso põe abaixo a caatinga seca para plantar quando chover. Mas quem disse que chove?
“Essa lagoa no ano passado não pegou uma gota d’água. Não tem melhora aqui não. A melhora é essa aqui. A gente de sol a sol pelejando pra sobreviver e vê se a gente apronta um pedaço de chão pra poder no próximo ano Deus mandar um bom inverno e a gente tá aqui dentro né”, diz o agricultor.
O suor é só esperança, quem sabe ano que vem.
A batalha diária é para saber de onde vai tirar a água para beber. Arroz e feijão todo dia, só por causa da aposentadoria rural, porque a terra do quintal virou poeira.
“Não foi ainda este ano que a gente plantou e não deu nada. A pessoa quando tem raiva não sobe o sangue na cabeça? Pois é, é isso”, diz a agricultora.
Ficar e lidar com a terra vira uma batalha.
“Isso aqui no ano passado, num tempo desse, era tudo verdinho, tudo verdinho. Este ano por causa da seca que é grande, tá tudo seco e sem nada. Não tem nada. Nessas áreas de chão não tem nada. Tudo se acabando sem nada, mas tudo mesmo se acabando sem nada. Ninguém vê nada”, conta o agricultor Francisco José de Deus.
Francisco roçou, cavou, semeou, cuidou, mas na hora de colher: nada. “A coisa mais difícil que eu já vi na vida? Vou já lhe falar, sério. Foi essa seca que nós estamos nela. Nunca na minha vida eu vi passagem ruim como tem essa”, lembra Francisco.
Parece difícil imaginar o que faz o Francisco continuar e ficar. Numa paisagem como a que impressionou Rachel de Queiroz há 100 anos. Ela disse:
“As pobres árvores apareciam lamentáveis, mostrando os cotos dos galhos como membros amputados e a casca toda raspada em grandes zonas brancas.”
Quem não pega a estrada ainda luta com a terra. É um ato de resistência. Só quem é forte e tem coragem consegue ficar.
“Viver é muito bom, rapaz. Viver é muito bom, é? É bom demais. Não tem coisa melhor no mundo do que o cabra viver. Viver é muito bom”, afirmou Francisco.
G1