
Em fevereiro de 2020, o Ceará viveu treze dias de terror. Policiais militares amotinados deixaram as ruas sem policiamento, quartéis foram ocupados, viaturas tiveram os pneus furados, e um senador da República foi baleado enquanto tentava romper um bloqueio com uma retroescavadeira. O motim da Polícia Militar cearense completou seis anos deixando marcas profundas na segurança pública, na política e no cotidiano da população do estado.
Desde dezembro de 2019, policiais e bombeiros militares faziam protestos reivindicando reajuste salarial, o governo do estado, por sua vez, havia anunciado um pacote com salário fixo de R$ 4 mil, sem perder o adicional de R$ 200 já pago a cabos e soldados.
A proposta, porém, não agradou à categoria. Após duas rodadas de negociação sem acordo, a tensão chegou ao limite.
No dia 19 de fevereiro, mulheres de PMs fecharam a entrada do 18º Batalhão de Polícia Militar, no bairro Antônio Bezerra, em Fortaleza, várias viaturas tiveram os pneus esvaziados. Nos atos, policiais passaram a circular com rostos cobertos por balaclavas. O movimento se espalhou rapidamente pela capital e pelo interior do estado.
Com a ausência das forças de segurança, o resultado foi devastador para a população, em pouco tempo os índices de violência escalonaram de forma vertiginosa. Durante os treze dias de greve, foram contabilizados 312 homicídios, uma média de vinte e seis por dia. Para registro: antes da manifestação dos polícias, a média diária era de oito crimes de morte.
O episódio mais simbólico do motim ocorreu na cidade de Sobral. No dia 19 de fevereiro, o senador Cid Gomes conduziu uma retroescavadeira em direção ao batalhão do município, tentando forçar a entrada e encerrar o bloqueio. Policiais amotinados reagiram a tiros. O senador foi atingido por dois disparos de arma de fogo e precisou ser hospitalizado.
Até hoje, o senador Cid Gomes vive com os dois projéteis alojados em seu corpo. Um deles, próximo ao coração.
Na noite de 1º de março de 2020, durante uma assembleia pelos policiais grevistas votou pela aceitação da proposta elaborada por uma comissão especial formada por representantes dos três poderes. Os policiais retornaram aos postos na manhã do dia 2 de março.
O acordo não incluiu anistia, em contrapartida, os militares teriam garantido o acompanhamento de instituições independentes, como OAB e Defensoria Pública, nos processos disciplinares, além do direito ao contraditório e à ampla defesa. O governo também se comprometeu a não realizar transferências compulsórias para o interior por 60 dias.
Em maio de 2024, ex-policial militar Flávio Alves Sabino, o Cabo Sabino, apontado como líder do motim, foi condenado, pelo Conselho Permanente de Justiça Militar, a nove anos de prisão.