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Advogado é investigado por suposta manipulação de imagem com IA em julgamento da Chacina do Curió

Episódio já levou à condenação de oito policiais militares, enquanto outros 21 foram absolvidos

Raflézia Sousa
Por: Raflézia Sousa Fonte: Portal GCMAIS
01/04/2026 às 15h41
Advogado é investigado por suposta manipulação de imagem com IA em julgamento da Chacina do Curió
Foto: Reprodução

Um advogado está sendo investigado pela Polícia Civil do Ceará por suspeita de manipular uma imagem de câmera de segurança com o uso de Inteligência Artificial (IA) para apresentá-la como prova em um julgamento relacionado à Chacina do Curió, caso que resultou na morte de 11 pessoas na periferia de Fortaleza. O episódio, que teve grande repercussão no estado, já levou à condenação de oito policiais militares, enquanto outros 21 foram absolvidos.

A investigação teve início após solicitação do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), feita em outubro de 2025, para apurar possível prática de fraude processual durante o curso de um processo penal. De acordo com documentos obtidos pela imprensa, a Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) identificou inconsistências relevantes entre a imagem apresentada no julgamento e o material original captado pela câmera de segurança.

O nome do advogado não foi divulgado, uma vez que ele ainda não foi formalmente indiciado. O policial militar que ele representava também não teve a identidade revelada.

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Investigação aponta divergências entre imagem original e material apresentado

Segundo o Ministério Público, a imagem apresentada pelo advogado foi anexada aos autos três dias antes do julgamento. O material seria oriundo de um laudo pericial produzido em 2016 pela Pefoce, mas apresentava características distintas da versão original analisada à época.

O laudo original indicava que o vídeo da câmera de segurança possuía limitações técnicas significativas, como pixelização, alto nível de ruído, iluminação inadequada, presença de artefatos de compressão e baixa qualidade de foco. Conforme descrito, esses fatores comprometiam a nitidez das imagens e eram considerados irreversíveis, mesmo com o uso de técnicas de processamento digital.

No entanto, de acordo com o MPCE, a imagem apresentada posteriormente no processo judicial possuía qualidade superior à do vídeo original, com maior nitidez e definição. Além disso, o conteúdo da imagem sugeria uma interpretação diferente sobre um elemento relevante do caso: o tipo de veículo registrado nas imagens.

Enquanto a análise inicial não permitia identificação precisa, o material anexado pelo advogado indicava que o veículo não seria um Toyota Etios, como se supunha, mas sim de fabricação da Chevrolet. Para o Ministério Público, essa alteração pode ter influenciado a análise dos fatos no julgamento.

Chacina do Curió e desdobramentos judiciais

Chacina do Curió ganha novo capítulo com investigação sobre uso de imagem manipulada

A Chacina do Curió ocorreu em 2015 e é considerada um dos episódios mais graves de violência envolvendo agentes de segurança pública no Ceará. Desde então, o caso vem sendo julgado em etapas pelo Tribunal de Justiça do Estado do Ceará (TJCE), com sessões que somam mais de 330 horas de duração.

Até o momento, cinco julgamentos foram realizados, envolvendo um total de 29 réus, todos policiais militares. Desses, oito foram condenados e 21 foram absolvidos.

O primeiro julgamento teve início em 20 de junho de 2023. Na ocasião, quatro policiais — Antônio José de Abreu Vidal Filho, Marcus Vinícius Sousa da Costa, Wellington Veras Chagas e Ideraldo Amâncio — foram condenados a penas que inicialmente somavam 275 anos e 11 meses de prisão, além da perda dos cargos públicos. Posteriormente, após recursos da defesa, as penas foram redimensionadas para 238 anos e 11 meses.

Em outro julgamento, iniciado em 29 de agosto de 2023, oito policiais militares foram absolvidos após nove dias de sessão. Entre eles estavam Gerson Vitoriano Carvalho, Thiago Veríssimo Andrade Batista de Moraes, Josiel Silveira Gomes, Thiago Aurélio de Souza Augusto, Ronaldo da Silva Lima, José Haroldo Uchoa Gomes, Gaudioso Menezes de Mattos Brito Goes e Francinildo José da Silva Nascimento.

Órgãos se manifestam sobre o caso

A Polícia Civil do Ceará foi procurada para comentar o andamento das investigações, mas não respondeu até a publicação desta matéria. O Ministério Público informou que aguarda a distribuição formal dos autos pela Justiça para se manifestar oficialmente sobre o caso.

Já a Ordem dos Advogados do Brasil – Secção Ceará (OAB-CE) declarou que, até o momento, não foi informada sobre a investigação envolvendo o advogado.

O caso segue sob apuração e pode ter desdobramentos tanto na esfera criminal quanto disciplinar, dependendo dos resultados da investigação conduzida pelas autoridades competentes.