Por: Thiago Rodrigues
12/04/2010 às 07h19 Atualizada em 12/04/2010 às 07h21
A Fazenda Paula Pessoa, administrada pelo Detran para receber jumentos
abandonados nas estradas do Estado, não merece mais o título de campo
de concentração, conforme foi noticiado por este jornal em fevereiro de
2008. Na época, o local era administrado pelo Departamento de
Edificações e Rodovias (DER) e os animais estavam abandonados, deixados
praticamente sem água e sem comida. Atualmente, a realidade está bem
melhor.
Após apreensão nas estradas, os jumentos são examinados
por um médico veterinário e recebem total assistência, incluindo boa
nutrição. A diferença é visível entre quando eles chegam e após algumas
semanas morando na fazenda.
Localizada na rodovia CE-176, em
Santa Quitéria, a fazenda recebe diariamente uma média de até 30
jumentos abandonados nas estradas. Muitos deles chegam magros, bastante
maltratados pela situação do abandono.
Com a urbanização, hoje
se veem muitos destes animais soltos, abandonados, substituídos por
motocicletas e automóveis. Aqui eles recebem o tratamento que deveriam
ter tido do proprietário, que tem obrigação de cuidar e não o fez. É um
animal vivo e dócil, mas também tímido e teimoso, diz o veterinário
Pedro Paulo Noronha, responsável pela sanidade dos quase 6 mil animais
recolhidos na fazenda. Segundo explica, os primeiros cuidados são a
fixação de um selo numerado na orelha, a vacinação e a vermifugação.
No
primeiro momento são avaliados um a um, levando-se em conta peso,
estatura, idade e as condições de saúde. Depois, eles são separados em
piquetes, para controle dos possíveis acasalamentos. A fim de
proporcionar as condições de alojamento essenciais à garantia da
qualidade de vida destes animais, eles são mantidos em grupos, e
encontram com facilidade abrigos sob árvores que fazem parte da
vegetação da fazenda. A partir daí, os jumentos recebem alimentação
adequada, à base de capim, espalhado em pontos estratégicos da fazenda.
No
campo, observa-se que o jumento é um animal que come pouco e
contenta-se com forragem e grãos de inferior qualidade que outros
animais rejeitariam. A água é disponibilizada em abundância nos quatro
açudes que foram construídos dentro da fazenda.
A longevidade
média do jumento é de 15 a 18 anos, por causa do excesso de carga, que
esgotam suas energias vitais. Porém pode atingir de 30 a 35 anos ou
mais, explica Pedro Paulo. A fase adulta acontece entre três e quatro
anos. Os dentes, que evoluem de uma forma idêntica a dos cavalos, são,
como nestes animais, um bom meio para o reconhecimento da idade. Nas
fêmeas a gestação dura, aproximadamente, um ano, tendo em cada parto uma
cria. Muito raramente, podem gerar duas. Durante muitos séculos, este
animal foi meio de transporte, de estimação e, até mesmo, um bem de
herança.
Como são animais que podem transmitir a raiva e o
tétano, os funcionários, antes de lidar com a espécie, são vacinados
contra esses males, disse o veterinário. Na fazenda, pelo menos 12
homens trabalham diariamente dando comida e água para os bichos.
Cuidados
essenciais
Os jumentos são animais que precisam de
cuidados pontuais. Mas a demora no atendimento aos primeiros sinais de
doença pode levar a sequelas como as dermatites, normalmente sazonais, e
que ocorrem com maior frequência nas mudanças de estação (inverno/
verão); as pneumonias, mais frequentes nas chuvas; e as cólicas, que
podem acontecer durante todo o ano.
Apesar de este animal ser
originário de regiões semi-desérticas e de se adaptar a viver sob as
mais diversas condições, climas, tipos de relevo e habitats, não
dispensa alguns cuidados básicos. Também não se deve esquecer que
trata-se de um animal gregário, não gosta de viver sozinho. É
recomendado manter pelo menos dois jumentos juntos. Caso não seja
possível, poderá ser mantido com um animal de outra espécie (cavalo,
cabra, ovelha, entre outros).
No Ceará, há 10 centros de
apreensão de animais nas estradas, localizados em Maranguape, Aracoiaba,
Quixeramobim, Iguatu, Crato, Russas, Itapipoca, Sobral, Santa Quitéria e
Crateús. A Fazenda Paula Pessoa tem 900 hectares, sendo 500 sob gestão
do Detran.
O jumento é um dos
animais de carga e tração mais antigos da humanidade. É personagem de
passagens bíblicas, servindo de montaria ao Filho de Deus durante
entrada triunfal em Jerusalém. É um mamífero de médio porte, que está
ligado ao homem desde os tempos mais remotos do período Neolítico. Os
registros mais antigos da sua domesticação provêm do antigo Egito.
Admite-se que, na Europa, tenha surgido no quinto milênio antes de
Cristo e se expandiu por todo o continente.
Um dos maiores
protetores da espécie foi o Padre Antônio Batista Vieira, ou
simplesmente Padre Veira. Ele é autor de uma das obras literárias mais
comentadas, O Jumento nosso irmão, que lhe deu o título internacional
de Protetor do Jegue. Nascido no ano de 1919, na Lagoa dos Órfãos,
Município de Várzea Alegre, faleceu em 2003, em Fortaleza, aos 84 anos.
Teve o livro lançado em 1964 e traduzido para o Inglês. Sua obra-prima
publicada pela Livraria Freitas, é um tratado sobre o jumento,
focalizando-o na História, Religião, Economia, Folclore e Literatura.
Nesse tratado, fica-se sabendo que os primeiros jumentos aqui chegados
parece terem sido trazidos por dona Ana Pimentel, esposa e procuradora
de Martim Afonso de Sousa, donatário das capitanias hereditárias de São
Vicente e do Rio de Janeiro.
Durante 50 anos, Padre Vieira
militou em defesa dos jumentos transformando-se em seu defensor máximo,
contra sua extinção. Por mais de seis décadas dedicou-se ao sacerdócio.
Ele
foi um dos fortes integrantes do movimento surgido na cidade do Crato,
chamado Trilogia do Ciclo do Jumento, ao lado de Luiz Gonzaga, José
Clementino, Patativa do Assaré e outros, cujo objetivo principal é a
defesa do jegue.
No Ceará, destaca-se também na defesa dessa
espécie a presidenta da União Internacional Protetora dos Animais
(Uipa), advogada Geuza Leitão. Em diversos momentos, cobra das
autoridades ações de combate aos maus-tratos.
Quem tem um desses
jumentos recolhidos por um pequeno descuido e tem interesse em reaver o
animal, basta se dirigir à unidade do Detran mais próxima da região onde
mora e tentar resgatá-lo. Caso contrário, terá que vir até a fazenda,
assinar um termo de compromisso, pagar uma taxa que fica em torno de R$
112,00, além das diárias, cobradas ao preço de R$ 22,00. Depois disso, o
dono fica responsável por qualquer dano causado a qualquer pessoa que
trafegue pelas nossas rodovias, disse Pedro Paulo.
Fonte: Wilson
Gomes, colaborador do Diário do Nordeste