Os curadores da exposição classificam a decisão como "censura" e vão recorrer.
A exposição traz trechos de reportagens que, segundo o juiz Rogaciano Bezerra, afetam negativamente Jair Bolsonaro. Uma das reportagens, de outubro de 2021, cita a crítica de um membro de comitê da ONU sobre a exposição que Bolsonaro fez de uma criança com uma réplica de arma nas mãos.
Ainda conforme o autor do despacho, fiscais de propaganda constataram a "verossimilhança dos fatos alegados" pela denúncia, que feita por meio do Pardal, aplicativo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que recebe relatos de supostas irregularidades eleitorais.
No despacho, o juiz eleitoral Rogaciano Bezerra Leite Neto determinou que o responsável pela exposição "retire, no prazo de 2 (dois) dias, os cartazes que veiculam a propaganda negativa ao citado candidato, sob pena de aplicação de multa".
De acordo com o jornalista, pesquisador e curador, Danilo Patrício, a decisão do juiz eleitoral é uma "censura contra o trabalho artístico".
"A decisão, ao modo de censura, é diretamente sobre essa parte da Exposição, o Beco da Casa, com murais de imagens e intervenções artísticas diversas. É uma violação contra o trabalho de pesquisa e de todo o trabalho histórico", afirmou.
Problemas sociais desde Canudos
Danilo Patrício afirma que toda a obra relembra os problemas sociais que o Brasil enfrenta desde a época de Canudos. "Não falamos só de Canudos. Mostramos através das imagens os problemas enfrentados pelo nosso país desde essa época. Problemas sociais que você conhece, que eu conheço e que todos nós conhecemos. Foi um grande equívoco dele. A interpretação é livre. Temos várias perguntas. Por que ele não nos ouviu? As escolas que não viram? Os alunos que não viram não vão ver?", disse.
No século XVIII, Antônio Conselheiro reuniu centenas de pessoas que sofriam com os efeitos da seca na região de Canudos, na Bahia. O governo na época temia um poder paralelo da comunidade. Após múltiplos ataques do Exército, várias pessoas foram assassinadas, e os sobreviventes foram expulsos do local.
O outro curador da exposição, Osvaldo Costa, lamentou a decisão do juiz eleitoral. Para ele, decisão é equivoca do juiz por achar ser "propaganda eleitoral negativa".
"A meu ver, uma decisão equivocada. A Justiça Eleitoral mandou que parte do material da Exposição Tramas de Belo Monte, da qual somos curadores, fosse retirada sob alegativa de que se tratava de “cartazes” com “propaganda eleitoral negativa".
“Na verdade, como se vê nas fotos, o espaço é composto por dois grandes painéis nos quais é exposto o material pesquisado e coletado por nós: notícias e matérias extraídas de meios de comunicação de grande circulação, contemporâneos e, também, do final do Século XIX e do Século XX", pontuou.
"Estamos tomando todas as medidas judiciais cabíveis para enfrentarmos isso. No entanto, achamos que é pouco, mesmo que a gente consiga reverter judicialmente. Se não acontecer o reconhecimento de equívoco por parte da Justiça Eleitoral, terá sido então um grave ato de censura e de silenciamento da livre manifestação artística e da liberdade de pesquisa que devem pautar um Estado Democrático de Direito”, afirmam os curadores.
G1 CE