Os dias de glória do bar já iam longe quando Antônio reformou o lugar, que começou a encher de gente bebendo em pé na calçada e de pessoas levadas pela fama do risoto de camarão. Era o início de uma rede. Na inauguração de cada nova unidade, o nome na fachada é acompanhado pelas palavras “desde 1952”, o ano de nascimento da matriz no Flamengo. É esse marketing da nostalgia que ele vem buscando ao investir em novas empreitadas: suas aquisições mais recentes foram casas cariocas de tradição, como o Nova Capela, na Lapa (desde 1903), o Bar Amarelinho, na Cinelândia (desde 1921), e o Cervantes, em Copacabana (desde 1955).
O próximo endereço nessa lista de clássicos vai ser a Pizzaria Guanabara (desde 1964), epicentro do Baixo Leblon, point boêmio que viveu momentos de glória nos anos 80 do século passado. Antônio ainda não revela o que será feito por lá, só diz que o ponto é dele e “vamos ver que bicho que vai dar”. — Gosto da cidade, tenho que fazer por ela o que ela fez por mim — diz o empresário. — Não dá para pensar no dinheiro o tempo todo, e estou com a minha vida financeira resolvida.
Outro histórico salão carioca que não sai dos seus pensamentos nasceu no tempo de Dom Pedro II e faz parte da paisagem carioca desde 1887.
Antônio conta que vendeu seu maior bem, uma ovelha que ganhou do tio, para poder viajar até o Rio. Hoje, aos 54 anos, cuida de um pequeno império, composto por 19 casas (oito delas com a marca Belmonte): 15 no Rio, uma em São Paulo e três na cidade do Porto, em Portugal. Ele garante que nunca teve ninguém por trás de seus negócios, ou seja, não tem o popular “sócio investidor”.
— Meus negócios foram feitos com o meu dinheiro. Posso dizer que nunca devi um real a ninguém, e nunca pedi um real a ninguém para montar uma casa. Já recebi propostas para vender o Belmonte, mas não quis. Isso é um negócio que eu fiz, que deu certo, não vou trabalhar para banco. Não quero — orgulha-se. — Sou um cara simples, não tenho luxos, e trabalho de segunda a segunda.
Na função de salvador de históricos redutos cariocas, o empresário ouve aplausos e críticas. A princípio, as casas mais conhecidas sofrem o mínimo de intervenção possível. Mas mexer com a memória afetiva de um povo tão passional quanto o carioca tem lá seu preço. Depois que reinaugurou o Cervantes, até a própria esposa se queixou das ripas de madeira que, na decoração do teto do bar, fazem alusão ao Belmonte. A clientela também sentiu falta do pão de leite, marca registrada dos sanduíches no cardápio tradicional.
A aparente teimosia se traduz em disciplina férrea no dia a dia: ele acorda todos os dias às 5h20, visita cada um de seus endereços cariocas e só dá o expediente por encerrado lá pelas 23h. Essa dedicação fez diferença quando a pandemia da Covid-19 chegou. Dos 1.100 funcionários no Brasil e dos 110 em Portugal sob sua tutela, não demitiu nenhum.
— Ficava olhando a televisão para saber se ia ter vacina, se não ia ter, e o dinheiro encurtando. Teve hora em que eu achava que ia perder tudo que tinha feito. Mas não sou deslumbrado. Sempre tenho reservas para um colapso de cinco meses. E se também tivesse que vender refrigerante na praia, ia vender e começar tudo de novo.
O primeiro trabalho por aqui, em um boteco de Icaraí, em Niterói, abriu a porteira para uma rotina de sacrifício, mas o levou a outras casas, com muitos turistas e gorjetas generosas. — Não tinha família, não tinha nada, então trabalhava das 11h às 2h. Era uma época em que o Rio recebia muitos turistas, e as gorjetas eram muito boas — lembra ele, que morava numa vaga com quatro beliches em Botafogo. — Nos dias de folga, comia uma vez só, um PF. À noite, ouvia música no rádio, mastigava um biscoito e ia dormir.
O Globo