
Os crimes de racismo e injúria racial seguem em crescimento no Ceará e alcançaram, em 2025, o sétimo ano consecutivo de alta. Dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social indicam que 413 denúncias desse tipo foram registradas no estado no último ano, número 10% maior do que o contabilizado em 2024. Por trás das estatísticas, estão histórias marcadas por preconceito, violência simbólica e impactos que acompanham as vítimas desde a infância.
Xingamentos, olhares de desprezo e piadas disfarçadas de brincadeira ainda fazem parte da rotina de muitas pessoas negras. Essas situações, além de configurarem crime, afetam diretamente a autoestima, a identidade e o sentimento de pertencimento, especialmente quando ocorrem nos primeiros anos de vida.
A agente de educação Sara Rodrigues, de 28 anos, relata que cresceu ouvindo críticas ao próprio cabelo e enfrentou a falta de representatividade negra durante a infância. “Na infância foi um pouco difícil de não ter representatividade negra e acabar que muitas crianças só tinham cabelo liso”, conta.
Ela afirma que essas comparações impactaram a forma como se enxergava. “E aí eu achava que o meu cabelo era feio, que o meu cabelo não era legal. Então tudo isso foi um marco, né?”, relata.
Os dados da segurança pública mostram uma escalada contínua dos registros de crimes motivados por preconceito racial no Ceará. Em 2019, foram contabilizados apenas 30 casos. Já em 2025, o número saltou para 413 denúncias.
O maior aumento ocorreu em 2023, ano em que a injúria racial passou a ser equiparada ao crime de racismo. Naquele período, 363 vítimas formalizaram registros, mais que o dobro do volume registrado no ano anterior.
Para o advogado Paulo Vale, o crescimento no número de denúncias está relacionado à ampliação das políticas públicas e ao maior entendimento da população sobre os crimes raciais, embora a subnotificação ainda seja uma realidade. “A gente ainda percebe uma subnotificação com relação a isso, mas a gente tem esse aumento porque há uma ampliação das políticas e que as pessoas começam a entender quais são as questões raciais envolvidas e que os casos de racismo, os crimes que são cometidos, não é mais brincadeira como era antigamente”, afirma.
Segundo ele, o avanço no conhecimento sobre o tema contribui para que mais vítimas procurem os canais oficiais. “Então, a gente tem esses aumentos dos casos até com relação a essa ampliação no conhecimento com relação às questões raciais”, completa.
A criação de estruturas específicas, como a Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, implantada em 2023, também é apontada como um fator que facilitou o registro das ocorrências.
Paulo Vale ressalta que denunciar ainda exige coragem por parte das vítimas. “Para quem sofre o racismo na pele, falar é um ato de coragem. Para a sociedade, o combate ao preconceito exige informação, responsabilização e políticas públicas efetivas”, destaca.
O advogado reforça que o racismo não se limita a um debate de opinião e possui consequências legais. “Porque racismo não é opinião, é crime”, afirma. Ele explica ainda que, além da esfera criminal, o agressor pode responder civilmente. “A gente fala muito na esfera criminal, mas também há responsabilização do autor, daquela pessoa que cometeu o crime de racismo, na esfera cível, requerendo daquele que cometeu o ato de racismo as questões de reparações cíveis, de danos morais que a vítima sofreu”, conclui.