
Uma assistente social viu a vida virar de cabeça para baixo na última quarta-feira (4) em Fortaleza: às 11h30, quando estava se arrumando para ir trabalho, recebeu uma equipe de policiais em sua casa informando que o carro dela estava sendo denunciado como veículo usado para sequestrar crianças na capital cearense. Usuários chegaram a ameaçar atacar o carro caso o vissem circulando.
Em conversa com o g1, a mulher contou que não sabe desde quando as imagens estão circulando, mas a repercussão começou na quarta-feira após a publicação em algumas páginas de fofoca no Instagram e grupos de WhatsApp. Desde então, nem ela nem o esposo puderam sair para trabalhar.
Nos prints, as páginas utilizavam um print de uma mulher de vestido vermelho puxando uma criança e, no topo, a placa do carro da assistente social. O texto afirmava que o veículo estava circulando na região do Grande Pirambu, em Fortaleza. As imagens veiculadas do carro mostravam a placa do veículo da assistente social. O g1 reproduziu as imagens nesta reportagem, mas borrou a placa.
O print da mulher de mulher de vestido puxando a criança, usado nas notícias falsas, na verdade é um trecho de um vídeo de 2024, de uma mãe que tomou o filho da avó na cidade de Santos, em São Paulo.
Após tomar conhecimento das notícias falsas, a assistente social foi com o companheiro a uma delegacia fazer boletim de ocorrência. Na volta para casa, a Polícia Civil chegou a escoltá-los para garantir a sua integridade física.
Nas horas seguintes, as informações falsas começaram a ser publicadas em outras redes sociais, como TikTok e Kwai. Usuários passaram a fazer ameaças contra a mulher e ameaçavam depredar o veículo caso o vissem circulando. "Nós estamos reclusos e nossa vida parou", contou ao g1.
Na quinta-feira (5), a Secretaria de Segurança do Ceará (SSPDS) alertou que "são falsas as informações que circulam em redes sociais com relatos sobre supostos carros envolvidos em tentativas de sequestro de crianças em Fortaleza". A pasta também destacou que não há nenhum registro oficial de sequestro de crianças nos últimos dias.
"Também reforçamos a importância de não compartilhar boatos. Em situações suspeitas ou emergenciais, a orientação é acionar imediatamente o 190 ou procurar uma delegacia para que os fatos sejam devidamente apurados", disse a secretaria.
Nos últimos dias, a assistente social tem procurado as páginas de Instagram e veículos de imprensa para desmentir as informações vinculadas a seu carro. Ela disse temer ser atacada caso seja vista circulando nele.
Ao g1, a assistente social contou que após receber os policiais em casa na quarta-feira (4), os agentes orientaram que ela fizesse um boletim de ocorrência. Àquela altura, as imagens do seu carro já estavam circulando em páginas no Instagram e grupos de WhatsApp. Ela foi diretamente para a delegacia, onde registrou o B.O.
A despeito da denúncia, os boatos continuaram a circular nas redes sociais. Ela passou a receber mensagens de desconhecidos em seu telefone no WhatsApp. Na quinta-feira (5), uma segunda equipe de policiais foi à sua casa, dessa vez membros do Comando Tático Motorizado (Cotam).
Os agentes afirmaram que ter recebido uma denúncia anônima de que o carro dela estava naquele momento sendo usado para sequestrar crianças em Itaitinga, município vizinho a Fortaleza, a quase 40 quilômetros de distância de onde a assistente social mora. O carro porém, puderam ver os policiais, estava estacionado na garagem.
Nesta sexta-feira (6), mesmo após a divulgação nas redes sociais da Secretaria de Segurança de que o caso se tratava de notícia falsa, a assistente social recebeu informação de que as imagens do seu carro e dos supostos sequestros estavam circulando em grupos de WhatsApp de mães de estudantes.
Desde o início dos boatos, a assistente social e o companheiro não têm saído para trabalhar. Ela conta que, mesmo que a imagem dela não tenha sido veiculada, alguns usuários descobriram seu endereço e publicaram nas redes sociais.
Até o momento, não há informação oficial se alguém foi identificado como responsável por iniciar os boatos nem se sabe a motivação. Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública informou que o caso está sendo investigado pela 1ª Delegacia de Polícia Civil da Capital.