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Médium é investigado por desviar milhões de reais dos sogros por meio de ‘conselhos de espíritos’

A Polícia Civil indiciou o médium por estelionato e abuso. O Ministério Público Estadual pediu mais informações à Polícia e analisa o inquérito.

Rita de Cássia
Por: Rita de Cássia Fonte: G1 Ceará
10/03/2026 às 08h20
Médium é investigado por desviar milhões de reais dos sogros por meio de ‘conselhos de espíritos’
Foto: Divulgação/ SSPDS

O chefe de um centro espírita de Fortaleza está sendo acusado de usar influência religiosa para desviar milhões de reais dos sogros idosos, por meio de supostas “orientações espirituais”. O caso está sendo investigado pela Delegacia de Proteção ao Idoso, da Polícia Civil, que indiciou o homem por estelionato e abuso.

As vítimas são um casal de idosos com mais de 80 anos, proprietários de uma empresa com atuação no mercado imobiliário, principalmente na região da Praia do Cumbuco, em Caucaia - destino turístico conhecido nacional e internacionalmente. Um deles foi diagnosticado com Mal de Alzheimer.

Conforme a denúncia apresentada à Polícia por três das quatros filhas do casal, o marido da quarta irmã, identificado pelas iniciais F. G., é o guru espiritual e presidente de um centro espírita frequentado pelo casal.

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O g1 opta por não divulgar o nome do guru espiritual, neste momento, para preservar a identidade do casal de idosos e, também, em razão do Ministério Público ter pedido mais investigações à Polícia Civil.

O casal faria uso do chá alucinógeno ayahuasca, sob orientação do guia espiritual, segundo a denúncia. As filhas afirmam que F.G. usou de influência junto ao casal idoso para fazê-los transferir milhões de reais a título de doações ou caridade, e que as movimentações financeiras teriam sido feitas após “espíritos” incorporados por F.G. recomendarem as transferências.

Entre os espíritos que ele teria incorporado, estão nomes mundialmente conhecidos como Napoleão Bonaparte, Princesa Isabel, Leonardo Da Vinci e Ayrton Senna.

Entre os episódios relatados pelas denunciantes estão o “sumiço” de mais de R$ 5 milhões da previdência da mãe delas, ao longo de meses, em diversas transações diferentes. Não há informações sobre a destinação do dinheiro.

As filhas do casal também acusam F.G de ter atuado para afastá-las dos pais, que chegaram a dispensar duas delas da empresa familiar.

Uma medida protetiva estabelecida pela Justiça impede F.G. de se aproximar dos sogros. O homem, porém, mora em um apartamento em cima do do casal de idosos.

A Polícia Civil indiciou F.G. em agosto de 2025 e o caso seguiu para o Ministério Público do Ceará (MPCE), que solicitou que a polícia fizesse mais investigações. Desde então, o processo não andou. Por meio de nota, o MP destacou que o processo está em sigilo e afirmou que “está analisando as novas informações encaminhadas pela Polícia para se manifestar dentro do prazo legal".

Acusação de manipulação

F.G. é casado com a filha mais velha do casal e, ao longo dos anos, vinha atuando como uma espécie de assessor financeiro e espiritual do casal. Ele mora em um apartamento em cima do imóvel dos sogros, na avenida Beira-Mar.

Conforme testemunhas, quando o idoso precisava tomar decisões importantes no tocante à empresa, F.G. o levava ao centro espírito, onde ele recebia aconselhamento de espíritos que estariam sendo incorporados.

O processo cita que F.G. não possuía renda fixa e que parte do dinheiro mensal que ele recebia vinha de comissões relacionadas a vendas da empresa, com base em suas “orientações espirituais”.

Ele possuía acesso às contas bancárias da sogra por meio do aplicativo do banco do celular, além de ter as senhas dos cartões de crédito, segundo a denúncia. Em depoimento à autoridade policial, a idosa disse que ele tinha acesso às informações porque ela não sabia como mexer no aplicativo.

O que diz o acusado

Em depoimento à Polícia, F. G. disse que o sogro recebia mensagens de espíritos incorporados por ele e por outros médiuns do centro, "todas de cunho positivo, incentivando à caridade". Ele negou que as mensagens espirituais tenham orientado os idosos a fazerem doações a ele ou familiares.

O investigado também disse que passou a ajudar a sogra, financeiramente, após pedido dela. Ele confirmou ter acesso aos aplicativos bancários da idosa, mas destacou que uma das filhas, que continua a trabalhar na empresa, também tem acesso às contas dela e do esposo.

F. G. disse que sua fonte de renda atual vem de uma doação que o sogro fez, há cerca de 7 anos, para todas as filhas e seus esposas, a título de adiantamento da herança.

A defesa de F. G. não foi localizada para comentar a denúncia da família da esposa dele e o indiciamento da Polícia Civil.