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O Acolhimento

O Acolhimento

Thiago Rodrigues
Por: Thiago Rodrigues
05/12/2012 às 16h31 Atualizada em 21/03/2020 às 11h20
Quando o sol ia despontando no horizonte, já sem suportar o frio, a sofrida senhora com muita dificuldade de andar, naturalmente, muito cansada, sentou-se na calçada da igreja matriz. Baixou a cabeça e pôs-se a rezar. As portas estavam todas fechadas, afinal de contas, era muito cedo para a primeira missa. Um senhor com alguns objetos na mão aproximou-se dela e com uma expressão facial que manifestava compadecimento dela, perguntou:

- O que a senhora faz aqui sentada a porta da frente da igreja? Até parece que pernoitou aqui...

A pobre mulher ergueu a cabeça e viu aquele senhor de traje humilde, portando em uma de suas mãos os acessórios necessários para realização da Santa Missa. Na outra mão, algumas chaves. Então, perguntou a ele:

- O senhor quer que eu saia da frente da porta para que possa abrir a igreja? O senhor é o pároco?

- Não, senhora. Eu sou somente um humilde sacristão e zelador da Casa de Deus.

- Desculpe, senhor sacristão, por estar atrapalhando o seu serviço. Quando cheguei aqui nessa madrugada, procurei um lugar onde me abrigar da chuva, não encontrei. Só achei este lado da porta desta capela para passar o restante da noite. Por favor, não se preocupe, pois estou de saída.

O rosto daquela senhora resplandecia como diamante quando falava. Sua voz parecia emitir um suave som de uma flauta. A alma do Sr. Tomás, o sacristão, foi tomada por uma estranha sensação de leveza e paz. Era um momento especial, diferente. Então ele a pegou pela mão e ajudou-a e levantar-se. Daí, ele falou:

- Não se preocupe, senhora, não há problema. Só perguntei porque fiquei de coração partido ao vê-la assim nesse estado.

Daí, a sofrida senhora saiu em direção à Praça da Matriz. O sacristão, sensibilizado com a cena, pensou com ele mesmo: dormi toda a noite em cama quente e aconchegante, enquanto essa pobre senhora não dormiu em momento algum. Passou a noite acordada com suas roupas molhadas e com muito frio.
A senhora caminhou vagarosamente até chegar a um dos bancos da praça, onde lá parou e sentou-se encolhida sentindo, naturalmente, o corpo estremecer de frio.
O sacristão resolveu então abrir a igreja, pois já estava quase na hora da missa. Entrando na igreja chegou frente do altar de Nossa Senhora, ajoelhou-se e orou. Comovido por ver uma mulher sofrida, pediu a Virgem Maria que o orientasse:

- Nossa Senhora me ajude, estou com uma grande dúvida. Vi uma mulher a porta da igreja sofrendo. Estou aqui sem saber o que fazer. Peço, humildemente, orientação. O que devo fazer no momento?.

Terminada a oração, iniciou sua obrigação de rotina que era a preparação para o ritual religioso: Acendeu as velas do altar, tirou a poeira dos bancos, limpou o altar, enfim deixou tudo pronto para o início da cerimônia.
Enquanto isso, na casa paroquial, outra pessoa se preparava para celebração. Tudo normal e rotineiro. O padre saiu de casa em direção à igreja. No meio do caminho, deparou-se com aquela mulher cabisbaixa e sentada. Perguntou:

- O que houve?

A senhora olhou para o pastor e começou a chorar.

- O que aconteceu, senhora? Por que o choro?

Ela nada respondeu, só abaixou a cabeça e continuou a chorar. O padre compadeceu-se. Resolveu antes de sua obrigação de rotina, ajudar aquela humilde mulher. Então a pegou nos braços e levou-a a casa paroquial. Estando lá, providenciou o tratamento emergencial de boas vindas: alimentação, banho, novas vestes...

- Não se preocupe, vamos tratar muito bem da senhora. Tem uma cama quente e lençóis, durma um pouco, descanse. Depois, voltarei. Sinta-se em casa.

Enquanto estava tratando dela, muitas pessoas já estavam esperando por ele. Visto que já estava passando a hora da missa. Rapidamente, o celebrante, entrou à Matriz, paramentou-se e foi ao altar central. Chegando lá, virou-se para todos e disse:

- Meus irmãos, peço desculpas pela demora. Estou com visita em minha residência.

Deu início ao ritual. Durante a realização do mesmo, a notícia espalhou-se, rapidamente, de que a visita que o padre acolhera em sua casa era uma senhora mal vestida e sem família. Todos ficaram comentando o fato. Acolher uma mulher logo na casa de um padre. “Isso não é bom”, comentavam todos.
Já para o final da missa aconteceu algo diferente do normal: à frente da igreja foi ocupada por um densa nuvem branca e dela saía dezenas de anjos. Logo, toda a igreja foi coberta por uma luz celestial. O Sol emitia gigantescos fachos de luz formando grandiosos efeitos óticos. De norte a sul e de leste a oeste, os ventos cortavam em uma constante disparada sem fim. De dentro daquele cerúleo espaço intenso onde toldava o nimbo, se abria um portal em que de dentro, uma legião de anjos saiam em revoada. Alguns desses seres celestiais portavam consigo instrumentos musicais. Muitos deles se aglomeravam no centro da praça, onde já chegavam tocando arpas e cantando numa harmônica ciranda de vozes. Os sons angelicais entoavam em todos os lugares a mais perfeita melodia.
Todas as pessoas, ficaram sem entender o que realmente estaria acontecendo. Fora da igreja um gigante arco íris coloria o firmamento. O padre, assim como o público ali presente, saiu em direção ao patamar e viram que o sino batia sem parar. O sacristão se aproximou do padre e perguntou:

- O que está acontecendo, monsenhor? Veja que coisa linda, ver nossa cidade florida de anjos.

- Não sei, Sr. Tomás, realmente não sei explicar.

Um dos anjos parou no patamar próximo ao pastor que lhe perguntou:

- O que está acontecendo? Estou vendo a paróquia coberta por uma enorme nuvem. Vários seres de luz, voando e cantando numa alegria jamais vista. A praça, florida de tantos anjos. Por que esta maravilha divina está acontecendo aqui?

O anjo, respondeu:

- O senhor não soube? a cidade recebeu uma visita muito especial.

Muitos anjos se agrupavam em um ponto da praça. Assim, como de relâmpago, uma bela senhora vestida de branco, com um rosário nas mãos e uma coroa de ouro na cabeça, apareceu por entre os anjos. O padre inebriado, notou que o rosto daquela bela senhora era o mesmo rosto da senhora que acolhera em sua casa.

- Não pode ser.

O padre perguntou ao anjo novamente:

- Quem é aquela Senhora tão linda?

- É nossa Mãe, monsenhor. Ela veio sentir na pele o sofrimento de muitos que precisam de um albergue. Veio com humildade sentir o seu grande coração e testemunhar o amor que o senhor tem pelos quiterienses. Fique sabendo, monsenhor, que foi um humilde pedido feito com fé que realizou tudo isso.”
Neste momento o Sr. Tomás lembrou que em suas orações tinha pedido uma orientação a Virgem Maria e agora entendeu o que Ela quis dizer. Ela quis dizer que um pequeno ato de humildade e bondade, transforma o homem.
O anjo se despediu dizendo:

- Vamos embora, a Imaculada Mãe agradece o acolhimento. Lembre-se de que sempre existirá uma pessoa precisando de abrigo. Deus age nas pequenas coisas e o Reino de Deus constitui-se de amor e humildade...

De repente, o Céu se abriu numa mágica dança de cores e os seres celestiais começaram a subir rumo ao infinito. Enquanto iam subindo a bela Senhora estendeu a mão sobre a cidade e disse:

- Rezem o rosário e a paz reinará em todos os corações.

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