Descaso cruel, em que a cada ano os problemas se agravam, se avolumam e arrastam a cidade para um futuro incerto, desordenado. A baixa escolaridade levou à baixa produtividade da mão-de-obra no campo e na cidade, aos baixos salários e a exploração pelos grandes empresários, à favelização do bairro Flores, Pereiros e Cinzas e à criminalidade.
Em Santa Quitéria, segundo o Censo do IBGE 2010, 23.617 pessoas de 10 anos ou mais de idade, não tem instrução e apenas o fundamental incompleto, ou seja, não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Esse número inclui os outros 27,44% considerados analfabetos absolutos, sem qualquer habilidade de leitura ou escrita. Apenas 1 a 3 quiteriense consegue ler, escrever e utilizar essas habilidades para continuar aprendendo.
Campo propício para aproveitadores e mercenários de toda forma, que se empoleiram nos cargos públicos, aprovam leis que beneficiam o patrão e excluem ainda mais a juventude pobre de Santa Quitéria. O que resta a grande maioria dessas pessoas é o trabalho informal, a semiescravidão e a fuga para outras cidades, retrocedendo ainda mais o crescimento do município.
Essa conclusão empurra Santa Quitéria a olhar para o meio onde está inserida, no preceito de educação não só para dentro dela, mas para o seu entorno. Ao contribuir para que os pais, os lares, sejam melhores, a escola estará contribuindo para melhorar a escola de amanhã e para melhorar a renda familiar.
A atenção voltada às famílias é uma maneira de compensar, em parte, as carências do ambiente familiar. Ao criar programas de orientação, a escola eleva a qualidade dos pais, elevando a dos filhos. A universalização do ensino fundamental, embora tenha agravado a qualidade do ensino, trará, contudo, para as futuras gerações de alunos, pais em melhores condições culturais para educar os seus filhos, revertendo em qualidade de ensino.
O descaso prolongado à educação, de décadas e décadas, é muito presente, de triste resultado, precisando de outras tantas décadas de políticas públicas consistentes para se conseguir uma solução plausível para a educação, em sua qualidade de ensino.
Para tanto, faz-se necessário alguns ajuste e noutras total rompimento com o modelo politico-pedagógico das escolas quiterienses, tais como:
1. Eleições para diretores e coordenadores das escolas de Santa Quitéria e fim da meritocracia; o modelo de indicação não considera critérios técnicos, mas o clientelismo político e o apadrinhamento legislativo.
2. Concurso público para professor em três fases: prova escrita; aula prática e prova de títulos;
3. Reformulação curricular: a teoria crítica-social dos conteúdos oferece subsídios teóricos e práticos para uma educação libertadora e inserção sócia;
4. Nucleação das escolas isoladas: a nucleação é necessária, porém mantendo os polos na zona rural.
Essas medidas, é claro, serão feitas com a boa vontade de nossos governantes. Todavia, nos lugares mais adiantados, as seguintes medidas poderão geralmente ser postas em prática.
Assim, ao meu ver ideia de reflexão pedagógica surge associada ao modo como se lida com problemas da prática política, à possibilidade de se aceitar um estado de incerteza e estar aberta a novas hipóteses dando, assim, forma a esses problemas, descobrindo novos caminhos, construindo e concretizando soluções, enfim, remodelando escola, currículo e prática docente, a economia e uma nova era em Santa Quitéria.
Nacélio Rodrigues é escritor socialista, articulista, professor e estudante universitário.
Referência:INAF – Indicador de Analfabetismo Funcional