Por uma decisão judicial que adiou a realização da audiência, a Anvisa teve de garantir espaço físico para mil pessoas. Escolheu para isso o Ginásio Nilson Nelson, na Asa Norte, garantindo a presença de até 14 mil pessoas. Compareceram cerca de 500.Os médicos que se manifestaram foram favoráveis à medida proposta pela agência. “A saúde pública não pode ficar refém dos interesses da indústria”, disse Alberto Araújo, representando a Sociedade Brasileira de Pneumologia. Ele classificou de “tabacocídio” as mortes provocadas pelo fumo. Roberto Gil, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, disse que se via nas duas posições: médico, tendendo a lutar contra o tabaco, e empresário, tendendo a defender a liberdade do setor.“Essa é a discussão. Alguém aqui acharia ético eu dizer para meu paciente: ‘Você tem que fumar bastante, porque tenho meus filhos para criar e funcionários para pagar?’. Se eu não tiver que atender mais câncer, me darei por satisfeito”, disse.A favor da medida ainda falaram, entre outros, representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Inca Instituto Nacional de Câncer (Inca). “A indústria é cara de pau, quer jogar o produtor contra o médico e a ciência. A propaganda deve ser zero”, disse o deputado federal Darcísio Perondi (PMDB-RS), presidente da Frente Parlamentar da Saúde.Perondi foi tanto vaiado quanto aplaudido. Foram 27 manifestações do público contra a proposta da Anvisa e 18 favoráveis.O lado contrário à proposta argumentou que ela vai prejudicar produtores e setores do comércio, evocou a liberdade de decisão das pessoas e questionou a competência da Anvisa para fazer esse tipo de regulamentação e a existência de comprovação científica sobre os malefícios do tabaco.“Querem aprovar o banimento do mercado legal, incentivando não a redução de consumo, mas o aumento do consumo ilegal”, criticou José Constante, prefeito de Agrolândia (SC).Uma das representantes da Souza Cruz, Maria Alicia Lima afirmou que, se a intenção da proposta é proteger jovens do cigarro, bastaria pôr em prática a legislação atual, que já proíbe a venda do produto a menores de 18 anos e restringe a propaganda aos locais de venda.Um dos mais aplaudidos foi Eusébio Borin, pequeno agricultor: “A maconha tem propaganda? E cada dia aumenta mais o seu consumo”, disse, bastante agitado. “O que a Anvisa vai fazer com as 200 mil famílias envolvidas na produção do fumo? Quem sabe, querem que vivam de Bolsa Família para ser cabrestado pelo voto”.(O POVO Online/AVSQ).