Quinta, 23 de Abril de 2026
21°C 31°C
Santa Quitéria, CE
Publicidade

Um ano após tragédia de Santa Maria, 42 sobreviventes lutam para respirar

Um ano após tragédia de Santa Maria, 42 sobreviventes lutam para respirar

Thiago Rodrigues
Por: Thiago Rodrigues
19/01/2014 às 17h42 Atualizada em 19/01/2014 às 17h42
Um ano após tragédia de Santa Maria, 42 sobreviventes lutam para respirar
Foto: Reprodução
Alguns sobreviventes passam o dia com um gosto de "borracha queimada" na boca. Outros relatam sentir, quando respiram, o mesmo cheiro da fumaça que tomou conta da boate em menos de três minutos - eles tomam medicamento diário para expelir um catarro negro acumulado nos brônquios. "É como se eles tivessem fumado por mais de cem anos em três minutos", afirma Ana Cervi Prado, médica coordenadora do Centro Integrado de Assistência às Vítimas de Acidente (Ciava), um ambulatório montado pelo Ministério da Saúde em Santa Maria exclusivamente para recuperar os feridos. Eles vão ficar pelo menos os próximos cinco anos em tratamento.


Kellen, uma das pacientes, luta para retomar os movimentos das mãos, além de passar por inalações diárias para se recuperar de uma lesão pulmonar grave. Ela se tornou um dos símbolos dos sobreviventes. Durante 78 dias (20 deles em coma, na UTI), a estudante ficou internada em Porto Alegre, com queimaduras de terceiro grau em 20% do corpo. Nesse período, a jovem teve o coto da perna direita amputado e enxertos aplicados nos braços. Antes de deixar o hospital, foi informada de que duas de suas melhores amigas não conseguiram se salvar.

Quase um ano após aquela madrugada de horror, a jovem de Alegrete voltou às aulas, está novamente morando sozinha em Santa Maria e parece pouco se importar com as cicatrizes. "Estou melhorando, até em boate eu já fui de novo, acredita? Só que agora eu fico bem perto da porta de saída. Olho antes nas paredes, para ver se tem extintores", conta. O que ela mais quer de volta são os cabelos longos. "Os médicos falaram que foi meu cabelo comprido que salvou as costas das queimaduras. Eu adorava aquele cabelo, chegava quase na cintura", recorda. A voz baixa e rouca é outra sequela da intoxicação causada pela fumaça da Kiss.
De muletas e tosse constante, Kellen tenta seguir com bom humor uma rotina de exames, fisioterapia e atendimento psicológico. O tratamento pulmonar vai durar pelo menos até o final de 2017 no Ciava. São 28 profissionais no ambulatório criado pelo governo federal, entre fisioterapeutas, psicólogos, pneumologistas e fonoaudiólogos. Das 145 pessoas hospitalizadas após o incêndio, 71 passaram pelo centro nos últimos 12 meses, das quais 29 tiveram alta. Os 42 sobreviventes que ficaram em coma permanecem com os alvéolos pulmonares contaminados por fuligem, segundo os médicos.

Diego Zanchetta, enviado especial - O Estado de S.Paulo