26/11/2014 - Não se tem a conta de quando a cultura, na humanidade, passou a dar explicações e respostas para o fenômeno inalienável da morte. Na antiguidade greco-romana, morte e vida eram aliadas. Quando alguém falecia, já dizia-se que seu sepultamento fertilizava a terra. Cada pedaço de chão tinha como sagrado o espírito governante, advindo do ancestral ali enterrado. Era o homem de volta à terra de que seria feito. Nessa época, construíam-se casas ao lado dos túmulos, tendo morte e vida uma noção de aliadas. Com o cristianismo, a ressurreição trouxe caráter de oposição entre vida e morte, sendo esta apenas a passagem para uma nova vida. O sagrado, portanto, não ficava na terra para fertilizá-la. Subia aos céus.
Se for criança, torna-se anjo. O Sertão nordestino nunca tinha visto tantos cemitérios de anjinhos quanto no século XX depois de Cristo. Eram espalhados pelas vilas, na beira das estradas. Em pequenas redes ou caixões de papelão, os corpos de crianças moribundas, só couro e osso, eram sepultados aos montes. Problemas gastrointestinais, de diarreia, disenteria, resumidos na "doença de criança", fazia vítimas de um holocausto particular. As mães, ao fazerem a conta de rebentos, somavam entre filhos e anjinhos.
A realidade no início do século XXI é diferente. Houve drástica redução de óbitos por desidratação causada pela diarreia. Contudo, as mortes de crianças, portanto, o nascimento de anjos, mesmo assistidas no hospital ainda é mais comum do que se imagina, sobretudo na camada mais pobre. Embora a maioria tenha sido desativados, os cemitérios de anjos continuam funcionando nos interiores do Nordeste. Se de um lado estão significados do sobrenatural; do outro, revelam a exclusão de famílias que também enterram seus entes ali porque, em cemitérios oficiais, não teriam onde cair mortos.
Hoje, como ontem, a presença da ausência ainda condiciona a vida de mães e pais do Sertão. Cada um com sua dor, ao seu modo, mas em um sertão que, tal qual a dor, é universal. E já que o caminho do céu para elas pode ser de pedras, a tradição cristã popular aponta medidas, com algumas variantes de tempo e espaço, consideradas necessárias para ajudar os pequenos anjos a encontrar o caminho da luz. Atravessando gerações transmitidos pela oralidade, ritos ajudam a ressignificar, para quem fica, a nova vida de quem já morreu. Saberes conferidos nas rezadeiras, parteiras, pais de santo, benzedeiras ou, simplesmente, mães do Sertão.
Os ritos e símbolos podem ser conferidos em cemitérios de anjinhos como o da comunidade Primavera, em Santa Quitéria, no Sertão Central do Ceará. É um dos campos santos clandestinos mais antigos ainda a receber crianças falecidas no Ceará. Fica às margens da BR-020, que liga Fortaleza a Brasília e é o principal caminho de milhões de romeiros que vão e vêm todos os anos em paus de arara para a festa de São Francisco das Chagas, em Canindé, no mesmo Sertão Central.
Vidas naufragadas
As cruzes rasteiras são o único aviso, feito âncoras de vidas naufragadas. Pelo menos 28 delas se individualizam. A maioria apenas com alguns tijolos cimentados e riscados com pedra ou pau indicando as datas extremas de nascimento e morte. Alguns trazem os nomes das crianças. Garrafas Pet cheias de água são colocadas em cima dos túmulos, "para que os anjinhos não tenham sede", afirma a rezadeira Edileuza Moura. Até a localização do cemitério é para que não se sintam sozinhos. De acordo com a benzedeira Odília Xavier, o enterro numa encruzilhada é necessário, sobretudo, para as crianças pagãs, que não tiveram tempo de ser batizadas. "Alguém que passe e ouça um choro de menino faz o sinal da Cruz e pede a Deus que guarde aquele anjo", explica.
Em outras simbologias, feitas de afeto, enterrar a criança de olhos abertos, colocar uma vela em sua mão logo no último suspiro de vida, para iluminar o caminho da alma que desprende do corpo. Em outros, é dito para a mãe não demonstrar seu sofrimento. Chorar pode fazer as lágrimas molharem as asas do anjo. Anjos com asas molhadas não voam.
Era fim de tarde, encontramos Joaquim Gonzaga, de 59 anos, cavoucando três palmos no chão para abrigar a neta Quitéria Lívia - não viveu seis dias completos. Bruno Silva, seu único irmão, faz o enterro. Inconsoláveis, os pais ficaram em casa. Choram longe para garantir que Lívia subiria ao céu.
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Diário do Nordeste