A avó materna do estudante, Maria de Souza Abreu, 81, era diabética e foi a primeira pessoa da família a morrer em decorrência da doença, no último dia 11 de fevereiro. Cerca de 15 dias depois, o irmão de Dona Eluína, como também era conhecida, veio a óbito aos 62 anos.
Na sequência, Samuel perdeu um primo, 44; além de três tias, de 77, 55 e 49 anos. A mais jovem tinha obesidade e as outras duas morreram na mesma madrugada do dia 16 de março. As seis vítimas residiam no Bairro Mangabeira, no Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).
Desde o início da pandemia até domingo (11), o município contabilizou 97 mortes e 6.487 casos confirmados de Covid-19, conforme a plataforma IntegraSUS, gerida pela Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). O Eusébio está em estado de alerta altíssimo para transmissão da doença.
Além das mortes, aproximadamente mais 30 integrantes da família de Samuel – incluindo ele – foram diagnosticados com coronavírus. Seu avô materno e um tio também foram internados em UTIs, mas já receberam alta.
Aumento de mortes na mesma família
Desde a confirmação dos casos de infecção pela nova variante no Ceará, se tornaram mais comuns registros de mortes por Covid-19 entre múltiplos membros de famílias. Com o início da segunda onda em outubro de 2020, cujo pico foi atingido em 1º de março, notou-se maior incidência de casos confirmados e, consequentemente, de mais mortes pela doença.
Para o infectologista do Hospital São José e professor de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Roberto da Justa, o agravamento da doença, seja entre pessoas dos mesmos grupos familiares ou não, pode estar relacionado à intensidade da própria pandemia nesta segunda onda.
De acordo com o especialista, estudos apontam, com cada vez mais veemência, que a nova variante é mais contagiosa e capaz de causar quadros mais graves da doença, repercutindo em mais internamentos e óbitos. Isso também pode contribuir para o acometimento da doença e de mortes em mais membros de uma mesma família.
Outro ponto a ser considerado, elenca Roberto da Justa, é a mudança no perfil dos pacientes internados pela doença. Diferente da primeira onda, quando a Covid se manifestava de forma mais grave entre idosos, há faixas etárias mais baixas sofrendo os mesmos efeitos, agora, na segunda onda.
“A gente sabe que o jovem também serve, digamos, como vetor. Muitas vezes, ele leva o vírus pra dentro de casa, mesmo tendo membros da família em isolamento, se preservando", diz, indicando a aceleração da vacinação em massa como a única solução efetiva para o problema. "Se a gente tivesse avançando mais rapidamente na vacinação, talvez esses dramas não estivessem ocorrendo”.
Prevenção em casa
Enquanto a vacina não contempla a maioria da população brasileira, os cuidados fora e, inclusive, dentro de casa devem ser reforçados, orienta a infectologista e professora da faculdade de Medicina da UFC, Mônica Façanha.
Na opinião da especialista, se comparado a 2020, as pessoas hoje estão “mais relaxadas”, ignorando dentro de casa as medidas de prevenção que devem, obrigatoriamente, adotar na rua. Entre elas, o uso da máscara, o distanciamento físico e a higienização das mãos.
Logo, essa pessoa, sobretudo se assintomática, acaba por infectar os demais, levando todos os familiares a adoecer ao mesmo tempo. “Ainda estamos em uma fase muito ruim [da pandemia], com uma grande quantidade de transmissão. Então, a gente não precisa ficar muito tempo exposto para correr o risco de receber o vírus”.
Diário do Nordeste