
Referência de política social do Brasil, o Bolsa Família completou recentemente em outubro, 20 anos como o maior programa de transferência de renda na história do país. Ao longo destas duas décadas, passou por ajustes e atualizações e trouxe marcos significativos na diminuição da desigualdade social: muitas famílias que conseguiram sair da pobreza, entretanto lidando com o cenário atual de tantos milhões que retornaram ao Mapa da Fome, vivendo nas camadas mais vulneráveis.
Em 2004, 3.341 famílias eram atendidas pelo projeto em Santa Quitéria, recebendo cerca de R$ 78,01. Hoje quase triplicou: são 9.180 famílias quiterienses, que recebem, em média, R$ 674,92, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil.
O benefício garante acesso à educação, saúde e assistência social a todos — as crianças, por exemplo, precisam estar matriculadas regularmente nas escolas e com o esquema vacinal completo. Atualmente, são 21.358 pessoas beneficiadas com o programa no município, tendo chegado a alcançar o número recorde superior a 26,4 mil em março de 2014.
Lançado no primeiro mandato do petista, o Bolsa Família sobreviveu à histórica instabilidade da política nacional. O programa foi um novo formato do Bolsa Escola, criado por Fernando Henrique Cardoso, dois anos antes. Foi revogado em dezembro de 2021 no governo de Jair Bolsonaro, passando a Auxílio Emergencial, pagando um valor maior de forma provisória - superou a marca de R$ 1.300 -, que depois tornou-se Auxílio Brasil e em junho passado, reestabelecido ao seu nome anterior, com a adição dos benefícios variáveis pagos a adolescentes com idade entre 16 e 17 anos e o benefício para a superação da extrema pobreza.

Francisca e Antônia Gabriela são moradoras do assentamento Pintada. A primeira recebe desde o início, enquanto a outra começou em 2018. Ambas destacam a importância desse recurso para manter suas casas, afirmando que sem ele tudo seria mais difícil. "É uma grande ajuda, tanto para mim quanto para as crianças. Usamos esse benefício para pagar água, luz e comprar alimentos", revela Francisca.
Rosana Magalhães, residente no centro, enfatiza a importância do programa para aqueles que lutam para sobreviver: "Salvou muitas pessoas da fome e as tirou de situações difíceis, proporcionou dignidade para essa pessoas", destaca. Pesquisadores e especialistas no assunto Bolsa Família veem que ele se sustenta porque ao menos uma parte das crianças beneficiárias quebra o ciclo intergeracional de pobreza. Ou seja, os filhos ajudam sua família a deixar de ser pobre no futuro.
No total de pessoas que estão cadastradas no CadÚnico, a maioria é de mulheres, com 18.315 com cadastros atualizados e 16.627 homens. A faixa etária com maior número de beneficiários em Santa Quitéria está de 25 a 34 anos, tendo no passado ficado entre infância e adolescência. Hoje, mais de 11,5 mil famílias vivem, ou sobrevivem, na cidade com uma renda até meio salário mínimo, conforme o ministério.
Para a economia local, possui um impacto positivo no consumo, geração de empregos, número de contas bancárias e na arrecadação de impostos. O comerciante Neto Tavares afirma que isso colabora significativamente, pois se as pessoas tem mais recursos para comprar, maior é o movimento financeiro no seu estabelecimento. De acordo com uma pesquisa do Banco Mundial, a cada US$ 1 investido, o programa devolve US$ 2,16 para a comunidade local. Seguindo esta conclusão, cada família devolveria, no mínimo, R$ 1.296 para a economia local.