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Doação de órgãos transforma perdas em novas chances de vida no Ceará

O processo de preparação envolve tanto o potencial doador quanto o receptor.

Raflézia Sousa
Por: Raflézia Sousa Fonte: Portal GCMAIS
31/01/2026 às 10h25
Doação de órgãos transforma perdas em novas chances de vida no Ceará
Foto: Reprodução

O transplante de pulmão, considerado um dos mais raros no Brasil, já contabilizou 59 procedimentos realizados no Ceará. Neste ano, pela primeira vez, um pulmão doado do interior do estado foi transportado para um paciente na capital. Israel Medeiros, chefe do setor de transplante pulmonar do HM, explica os desafios: “A gente tem um número grande de receptores, de candidatos ao transplante, pessoas precisando, as filas em geral vão aumentando, mas a gente não consegue transplantar todo mundo nessa lista”. Ele ressalta que apenas entre 5 e 10% dos doadores podem ter o pulmão aproveitado, tornando cada oportunidade ainda mais preciosa.

Para Ana Cordeiro, ações simples como andar, respirar e se movimentar representam um esforço diário. Ela é vítima de fibrose pulmonar e recebe acompanhamento da equipe do Hospital de Messejana, que vai além do cuidado físico. “Aqui a gente recebe não só esse acompanhamento para melhorar nosso condicionamento físico, mas também melhora nosso emocional, nosso psicológico e tem sido muito”, afirma Ana, destacando a importância do apoio multidisciplinar.

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O processo de preparação envolve tanto o potencial doador quanto o receptor. A enfermeira Maiana Pacífico detalha: “Caso a gente verificar a altura, o peso, o tipo de trauma que ele sofreu, a hemodinâmica desse potencial doador, que também é muito importante… são solicitados alguns exames para a central de transplante para que seja possível, tanto clínico quanto cirurgião, verificar o potencial doador e dar o aval de que realmente é um doador viável para o transplante”. Paralelamente, fisioterapeutas como Melissa de Queiroz trabalham com os pacientes para melhorar a capacidade funcional: “Nós já tivemos alguns casos de pacientes que chegaram muito debilitados para a fila de espera… e que, ao curso do processo de reabilitação, conseguiram evoluir”. Ana, inclusive, precisou pausar seu preparo devido a uma gripe, mas segue se reabilitando para voltar à lista de espera.

Além da complexidade médica, a doação de órgãos depende do acolhimento às famílias em luto. Eliana Régia, líder da Central de Transplantes, explica que equipes intra-hospitalares são essenciais: “Hospitais com UTIs… precisam de equipes de doação. Elas entrevistam a família, acolhem antes de… entrevistá-las, fazem um acolhimento adequado, baseado no respeito, na empatia, na autenticidade”.

Paulo Rossas, presidente da Fundação do Rim, reforça: “Muita gente diz, será que vão tirar o órgão do meu ente querido e ele ainda com vida? Isso é praticamente impossível… existe um respeito muito grande a esses critérios. Hoje, a taxa de negação no Brasil é muito alta. Nós chegamos a ter 45% de negação, ou seja, de 100 famílias abordadas, 45 dizem não para a doação. Oito vidas podem ser mudadas quando uma família toma a decisão certa”.

Todos os profissionais concordam em um ponto central: doar é um gesto de amor que transforma a perda em vida. “Eu sou doador de órgãos. Quando isso acontece, não fica só pra você. Liga pra sua família, pros seus amigos… Aquele órgão vai pra debaixo da terra, vai ser cremado, ao passo que se você doar, ele pode salvar às vezes sete, oito vidas”, conclui o médico. Entre vidas e filas, cada gesto de doação simboliza esperança, recomeço e a possibilidade de escrever novas histórias.