
Lúcio Alcântara perdeu a reeleição em um contexto de declínio do PSDB e ascensão de Lula ao poder. Entre os trechos da entrevista concedida por Ivo Gomes à rádio Coqueiros, em Sobral, chama atenção o equívoco comparativo e temporal ao relacionar os cenários de Lúcio e de Elmano.
Ivo fez a seguinte declaração: “no momento só temos uma candidatura lançada, que é a candidatura do Elmano, que está igual ao Lúcio Alcântara. Igualzinho. Tá igualzinho contabilizando negócio de prefeitura”, disse no primeiro momento e prosseguiu: “Eu me lembro quando o Lúcio Alcântara era candidato à reeleição, batia nos peitos: eu tenho 160 prefeituras do meu lado. O Cid tinha dez prefeituras e ganhou do Lúcio Alcântara no primeiro turno”, asseverou.
Ivo se refere a uma fala de Elmano em que o governador afirma não temer adversários e sustenta que qualquer candidatura terá de enfrentar uma estrutura política apoiada pela maioria das prefeituras, deputados e vereadores. Elmano não distorce a realidade: esse é, de fato, o quadro atual.
Ivo tentou convencer os ouvintes de que o peso da máquina administrativa não é determinante em processos eleitorais, ele mesmo sofreu uma derrota estando com a máquina na mão. Contudo, há contextos e contextos.
O recorte histórico da reeleição de Lúcio Alcântara, que acabou derrotado pelo hoje senador Cid Gomes, comparado com a reeleição de Elmano, é extemporâneo.
Lúcio chegou ao Governo do Ceará com as bênçãos de Tasso Jereissati, no auge de seu prestígio político, no apogeu do PSDB, com Fernando Henrique eleito e reeleito presidente da República. Essa força que impulsionou Lúcio ao Palácio da Abolição se voltou contra ele em sua reeleição justamente porque não aceitou apoiar Cid Gomes.
Naquele período, a força do senador Tasso, aliada ao poderio emergente da família Ferreira Gomes, liderada por Ciro, era uma estrutura político-partidária avassaladora no Ceará. Lula e o PT eram forças emergentes.
Depois de duas décadas, Elmano vai para a reeleição com um PT comandando as três esferas de poder: Governo Federal, Governo do Estado, Prefeitura de Fortaleza e, sim, a maioria das prefeituras do interior cearense.
A polarização atual não passa mais pelo PSDB nem pelo eixo Tasso–Ferreira Gomes. O protagonismo eleitoral desses grupos já não é o mesmo, e o cenário foi profundamente alterado após a ascensão de Bolsonaro à Presidência da República.
Diante desse novo arranjo político, Ciro e Tasso se veem compelidos a dialogar com o campo bolsonarista, cuja força se impõe mesmo por meio de candidaturas isoladas, como a de Eduardo Girão, sustentada pelo conservadorismo de direita.
Ivo acertou em impor o limite daquilo que considera aceitável em uma relação política e deu sinais da debandada da família Ferreira Gomes em caso de uma possível candidatura de Ciro; todavia, erra ao comparar Elmano a Lúcio Alcântara, ignorando duas décadas de transformação no cenário político do Ceará e do Brasil.
A política não perdoa quem confunde nostalgia com estratégia.